sábado, 8 de setembro de 2012

Iconoclasta

Destruindo ícones. Literalmente.
Logo que comecei minha faculdade, procurei entrar pra valer no mundo jurídico. Afinal, não tinha padrinhos, amigos ou parentes no meio. Precisava, desde cedo, aprender a me movimentar neste terreno.

Consegui isso após muita insistência, o que, graças a Deus, me poupou diversas dores de cabeça no futuro.

Era um mundo novo para mim, numa banca grande, que atendia ao público carente, mas com um “quê” de originalidade, sem tanto “ctrl + C / ctrl + V”. Curioso que era, prestava atenção em tudo o que se passava à minha frente. Aproximei de todos que tive oportunidade, com exceção de um, cuja fuça não me agradava.

Ranzinza, ele chegava tarde e saía cedo. Entupia minha mesa de memórias de cálculos, dos mais variados tamanhos e formatos, que acompanhavam intermináveis execuções de alimentos. Já estava em vias de se aposentar e vivia a se queixar do Estado – que pagava seu subsídio – e dos calotes que sofria no mercado imobiliário (ele tinha uma imobiliária).

Certo dia cansei da distância e comecei a estreitar o contato. Já não me contentava com o fato de ver uma linda colega de trabalho de cabelos loiros, levar a fama por todas aquelas memórias de cálculos feitas com precisão e esmero.

Puxei a prosa e logo estávamos falando sobre política. Num pulo, surgiu o assunto “ditadura militar”. Ele havia se formado na UFMG, em meio a esse período turbulento. O papo já me interessou. Em poucos minutos já havia calado minha boca totalmente (e aberto os ouvidos na mesma proporção), quando soube que ele foi colega de turma de muita gente boa, dentre eles Francisco Rezek. Para completar era, ainda, profundo entendedor de vinhos.

Papo vai, papo vem, comentando os assuntos da semana, citei uma crônica de um colunista de uma dessas revistas semanais. Eis que ele me interrompe e brada: “Este aí é um iconoclasta!”

Na minha cabeça as palavras têm cores e formas, e a palavra “iconoclasta” havia soado um tanto quanto emblemática, feito carimbo de repartição pública sobre documentos. I-C-O-N-O-C-L-A-S-T-A. Era assim que meu cérebro a sintetizava. Só que seu significado simplesmente me fugiu, obrigando novamente o meu silêncio diante de crítica tão feroz.

Volto à minha sala com as mãos coçando para folhear um surrado Aurélio que ficava bem ao lado do Theotonio Negrão na estante. Foi aí que li a definição parecida como “aquele que se opõe a tradições, que se opõe ao culto de ícones, que se propõe a destruí-los”.

Pronto. Sem querer, o advogado reclamão, quase aposentado e cheio de histórias para contar, acabava de definir a si próprio. E eu, dali em diante, passei a admirá-lo.

O problema é que ele se aposentou. E parece que, com ele, uma geração de advogados e profissionais do Direito com um espírito essencialmente crítico.

A par de toda importância histórica que envolve o julgamento do caso Mensalão, tenho visto algumas associações um tanto quanto idiotas, colocando este ou aquele Ministro com status de super-herói (ou vilão). E tudo pontuado por frases de efeito do tipo "Batman é para os fracos, meu super-herói é negão e usa toga preta". Ora gente, Juiz sim, super-herói não.

Só que, para piorar, hoje tudo é repetido à exaustão. Aliás, tem muito disso hoje. É tudo muito mastigado, tudo cheio de repetições, mantras. Aliás, existe uma frase assim numa rede social dessas: “No que você está pensando?”. E quase nunca as pessoas pensam. Apenas repetem, repetem, uma chatice só. Ninguém para trazer opinião diferente, ponto de vista diferente. E quem se propõe a criticar ainda é tolhido.

Hoje a crítica ácida ou é vista como deboche, ou com descrédito, quase nunca como originalidade. É... Esconderam as britadeiras, as marretas e picaretas. Tem muito pouca gente disposta a destruir estes ícones. Quem - de fato - pensa o Direito de hoje?

3 comentários:

  1. esses debates de mensalão já me tiraram do sério. não sei se tu chegou a ver algo no meu facebook...

    a mídia diz uma coisa, todo mundo acredita, julga e condena! eu até comentei: de juiz de futebol ou de direito, todo mundo quer ser/é um pouco.

    Mas, sinceramente, me dói ver certas coisas...

    ainda dentro do mensalão, eu vi uma imagem com a foto de todos os ministros e um placar pra cada um. debaixo da foto do ministro que condenou qualquer pessoa por qualquer crime: herói. debaixo da foto do ministro que não condenou qualquer pessoa por qualquer coisa: corrupto.

    Sim, o importante é condenar qualquer pessoa por qualquer coisa. E como prova cabal de materialidade e autoria delitiva juntou-se aos autos a revista veja. (bingo!)

    devido processo legal? contraditório e ampla defesa? livre convencimento motivado? independência? E “isso” existe? Pra corrupto e vagabundo não! É o que pensam e defendem.

    É ofensa ao magistrado na sua função e é ofensa a sua própria pessoa. Eu acho que falta, no mínimo, respeito.

    Estão falando da cúpula do nosso judiciário: são estudiosos, doutrinadores, conhecedores do direito como poucos. De uma forma ou de outra, merecem estar lá.

    Eles dedicaram a maior parte das suas vidas ao trabalho. Muitos deles são magistrados há mais tempo do que são pais de seus filhos ou maridos de seus companheiros...

    Não seria o mínimo do razoável respeitar a decisão (motivada) de cada um deles?

    Já cheguei a ouvir que os ministros que não condenaram (alguém por qualquer coisa), o fizeram por terem vendido suas sentenças. Já ouvi também que o judiciário é o poder mais corrupto do Brasil.
    Não é triste? Dói.

    OBS: ufa, ein? desabafo mode on. #juninharevoltadaativar

    bjos
    babi

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  2. Ótima crônica, MOCAM!!!

    Me fez lembrar (pensar) uma velha canção de uma bandinha chamada... como é mesmo?... Pink Floyd... Algo assim... rs

    Diz a música:

    "We don't need no education
    We don't need no thought control
    No dark sarcasm in the classroom
    Teachers leave them kids alone
    Hey! Teacher! Leave them kids alone!
    All in all it's just another brick in the wall
    All in all you're just another brick in the wall"

    http://letras.mus.br/pink-floyd/1807746/#traducao

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  3. Sensacional!! Concordo com tdo! Na ansia de ver tdo conforme o q diz a imprensa (quase sempre abusiva e distorcida com o fito de soh criar barulho e influenciar aqueles q n sabem o q eh CF) o povo se esquece das pricipais garantias q temos contra o abuso do poder. Ao contrario do q todos dizem, o ministro heroi me assusta. Tende a ser ditador a inadmitir e julgar por corrupto aqueles qcn pensam como ele; de uma maneira ou de outra (no caso, ofensas diretas no proprio tribunal) a vontade eh destruir o adversario. Foi assim tbm com gilmar mendes se vcs se recordam. Sob o prisma de querer ser o unico correto sempre, visa a estremecer a maior qualidade de um juiz, q eh o livre convencimento, se um dia tiver q ser julgada por este tribunal, q o ministro heroi n esteja la, pq quero ver preservadas minhas garantias constituciobais, peincipalmente um juiz imparcial e seguidor de sua consciencia e nao da do povo instigado por falsas verdades da imprensa

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