domingo, 17 de junho de 2012

O Apito

Em outra oportunidade, deixei aberta, aqui, uma fresta da minha adolescência e pedacinho da infância. Foi em "O segredo pode estar no meio", onde refiro-me ao basquete como o esporte que tomou um grande espaço nessa fase de pouca idade, muitos sonhos e bastante energia.

Eu, alto e desengonçado, entrando no estirão (que em um ano me fez crescer 12 cm), encontrei no basquete o meu espaço, o meu lugar. O basquete foi o meu futebol. Sonhava ser um jogador profissional, sonho que era bombardeado por imagens de Michael Jordan, Magic Johnson e tantos outros, em plena ação, na NBA e no primeiro Dream Team. Tempos que não voltam...

E a minha identidade com aquele esporte não se limitava a altura destoante, mas a uma habilidade que rapidamente notei que tinha. E a combinação da crescente habilidade com a pouca idade, fez com que eu ficasse obcecado pelo esporte. Não faltava a um treino sequer. Só não jogava às segundas-feiras, quando o clube não abria.

Só que todo crescimento tem suas dores. Tinha cerca de 13 anos quando uma dor lombar, no início inofensiva, cresceu a ponto de me tirar o jogo das pernas. Coisas do crescimento, há muito nada disso me aflige. Mas à época, o ortopedista, num quê de empirismo (ou cautela, como queiram, pois não havia diagnóstico firmado para tudo), determinou o meu afastamento do esporte.

Não preciso dizer que aquilo foi um duro golpe numa cabeça oca de discernimento e com imaturidade para dar e vender. Quem nunca teve 13 anos aí? Pois é. Aquilo foi como se tirassem o meu direito de sonhar. Mais. Foi como se tampassem o escapamento de um carro em pleno funcionamento. Era vontade demais, energia demais, desejo demais para ser proibido.

Durante um ano (e para quem tinha vivido só 13, isso é coisa pra caramba!) eu compareci a TODOS TREINOS, sem faltar um só. Chovia? Estava eu e a nossa treinadora. Excursão para enfrentar outros times? Lá estava eu. E tudo isso sem encostar na bola. Recebi até uma homenagem no fim do ano.

Foi quando minha treinadora teve a ideia de me ensinar a arbitrar. Ganhei um livro de regras xerocado, um apito emprestado e comecei a ler e treinar tudo aquilo. Gestos, posicionamento em quadra, macetes. Como papagaio novo que era, aprendi o básico rapidinho e já ajudava a apitar os treinos dos meus amigos.

Como já estava mais seguro, minha treinadora teve a ideia de me botar para apitar o treino dos "cavalões". É... Eu sabia que aquilo não ia dar em boa coisa, mais dia menos dia. Eu, um petiz, apitando o treino do infanto, do juvenil!?

Não deu outra. Um dia minha treinadora me deixou arbitrando sozinho o treino dos cavalos e teve a brilhante ideia de ir lanchar. Naquela época a gente não tinha tantos rótulos para as coisas como temos hoje, mas se o MP estivesse presente ia logo dizer que se tratava de cena típica de bullying. Logo agora que estava tomando gosto pela minha nova função... 

Cheguei em casa arrasado com minha atuação e toda aquela consequência. Meu pai, embora não comparecesse aos treinos e à minha rotina no esporte, viu, naquele episódio, uma séria tentativa de se tirar o resto de doce que o basquete deixava na minha boca. Poderia ter comparecido comigo no treino seguinte, poderia ter tido uma conversa franca e direta com minha treinadora, relapsa naquele momento. Poderia ter dado uma coça em um daqueles cavalos.

Não, ele não fez nada disso.

Na mesa do almoço do dia seguinte, na minha cadeira, havia um embrulho pequeno com um cartão. Era um apito, um FOX Classic, como o da foto acima. No cartão estava escrito:

Os cães ladram, a caravana passa. Insista sempre.

Meu pai não poderia ter me dado lição mais perfeita. Tão perfeita que, desde então, essa frase me volta à cabeça, quando algumas dores ou cavalos atravessam o meu caminho. Ele tinha razão, o melhor é insistir.

6 comentários:

  1. Emocionante. Bela história. Que lição!

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  2. O certo é que os cães ladrão para todos, a caravana passa e, não raro, leva os sonhos dos que assim permitem. As palavras do seu Pai foram sábias. Vou guarda-las comigo. Obrigado por compartilhar.

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  3. Valeu irmão, estamos na luta, adelante!

    Paulo Henrique.

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  4. quero viver muito e ter muitas experiência para poder dar exemplos como esses aos meus filhos!
    foi lindo do seu pai!

    OBS: como se cresce 12 cm em 1 ano?!!! fiquei pretérita!! acho que faltou basquete na minha vida, pois minha irmã mais nova tem por volta de 12cm a mais que eu... e ela fez basquete!

    babi

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  5. Mocam,
    obrigada por compartilhar esta linda história conosco! Lição de vida!
    Te admiro muito!
    Abraço!
    Lana

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  6. Caro Mocam, que bela lição de vida. Você é uma benção na vida de muitas pessoas. Abraços.

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