terça-feira, 22 de novembro de 2011

Para pessoas, Pessoa

Um dos textos que mais gostei de escrever aqui neste blog foi o "Estou farto de Semideuses". Não sou a favor de uma humildade desregrada, até porque, no mundo de hoje, se você não se impõe, o trator da vida passa por cima sem dó nem piedade. É preciso buscar o equilíbrio, até nas virtudes ditas cristãs. Além do prazer de escrever, coisa que sou afeito, o texto na verdade era um desabafo contra os arrogantes e donos da verdade, especialmente concurseiros.

O seu título é um verso de um poema de Fernando Pessoa, denominado "Poema em Linha Reta". Fernando Pessoa, neste belíssimo texto, não escreve versos. Desfere golpes, num desabafo sem fim, a quem interessar possa.

Vez ou outra os versos de "Poema em linha reta" ainda tornam à minha mente, quando uma ou outra situação parece saltar aos olhos. Quando isso acontece, volto ao livro do autor lusitano, que fica bem à minha frente, numa estante. E releio o poema, como quem desabafa como o autor.

Hoje, porém, encontrei um vídeo onde o texto de Pessoa a que me refiro, é inserido num diálogo entre personagens. E num diálogo de novela das oito, pode!? A novela é "O Clone", de Glória Perez. Lobato, interpretado por Osmar Prado, é um alcoólatra que, apesar de ter plena consciência de sua fraqueza, dá de ombros para o enxovalho sofrido e responde a crítica de seu algoz em tom muito acima.

Vale a pena ver e refletir. Parar, olhar e seguir. Nada mais.



Poema em linha reta

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. 
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, 
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, 
Indesculpavelmente sujo, 
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, 
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, 

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, 
Que tenho sofrido enxovalhos e calado, 
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; 

Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, 
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, 
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, 

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado 
Para fora da possibilidade do soco; 
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, 

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo 
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, 
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... 

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana 
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; 
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! 

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. 
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? 

Ó príncipes, meus irmãos, 

Arre, estou farto de semideuses! 
Onde é que há gente no mundo? 

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? 

Poderão as mulheres não os terem amado, 
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! 
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, 
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? 
Eu, que venho sido vil, literalmente vil, 
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

6 comentários:

  1. eu assistia o clone TODOS os dias!! e eu lembro dessa cena, mas na época ela passou desapercebida.
    muito massa, seu mocam!!
    bjos

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  2. Nossa, Mocam, eu AMO o Fernado Pessoa e este poema em especial é MARAVILHOSO!
    Parabéns pelo bom gosto!
    Essa passagem do "Arre, estou farto de semideuses!
    Onde é que há gente no mundo?" É especificamente a minha favorita!
    Gostei muito de ler esse seu post!

    RED.

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  3. mto bom!

    e a interpretação do global tb foi boa!

    ótimo poema!

    grande abraço!

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  4. Obrigada, por me apresentar este poema, MOCAM. Bem hoje caiu especialmente bem. Jamais esquecerei.
    CarolDelVecchio

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  5. Mocam,
    mais uma vez, excelente post!
    Parabéns!

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  6. Que poema! Para ser lido e relido sempre!!!

    um abraço

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