segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Necessário ou contingente: Onde está o seu sonho?

A caixa do "contigente": Caixa de Pandora
Vocês já pensaram em qual destas duas caixas está depositado o seu sonho? Na caixa do "necessário" ou na do "contingente"? Pode até parecer estranho esse assunto num site em que o tema central são os concursos (e a vontade de ser aprovado num deles). Mas quero fomentar essa reflexão na cabeça dos leitores, principalmente daqueles que ainda estão cursando uma faculdade ou acabaram de terminá-la.


Resolvi buscar no dicionário e na mitologia grega, a inspiração para esse tema.Voilá!

Segundo o dicionário Aurélio, necessário significa:
1. Que não se pode dispensar; que se impõe; essencial, indispensável; 2. Que não pode deixar de ser; forçoso, inevitável, fatal; 3. Aquilo que é necessário, preciso, indispensável.
Já para o dicionário Houaiss, a definição de contingente é:
1. Que pode ocorrer ou não ocorrer, incerto; 2. Que ocorre por acaso ou por acidente, acidental, casual, fortuito, aleatório; 3. Diz-se de plano elaborado para substituir outro, no caso de eventualidades.
Uma profissão deve ser escolhida pela vocação. Vocação é chamado, na etimologia da palavra (do latim vocatio, ação de chamar, intimar, convite). Mas o boom das faculdades de Direito no Brasil forçou a realidade que é vista hoje: uma imensidão de bacharéis ávidos por ingressar no serviço público, muitas vezes sem se perguntar o porquê desta escolha.

Mas antes que algum leitor se ofenda com minhas palavras, preciso deixar claro algumas coisas. Não sou contra o serviço público. Sou é a favor do melhor aproveitamento das habilidades e anseios de cada um. E outra. Eu também sou um filho deste boom do Direito no Brasil. Formei numa faculdade particular, noturna e do interior. Mas, ao contrário de muitos, nunca flertei com outro caminho que não fosse o Direito. Sorte? Talvez. Mas acredito mesmo é em Deus, que soube abrir meus ouvidos quando essa voz me chamava.

Ando recebendo inúmeros emails de pessoas que acabaram de entrar numa faculdade (ou recém-formados), dizendo com uma convicção invejável a muito velho de guerra, que pretendem ser juízes, promotores. Gostaria realmente de acreditar que este desejo manifestado é legítimo. Mas, a julgar pelo número de emails que venho recebendo com a mesma ideia central, creio que boa parte disso é irreal. Ou é fruto da pouca percepção da amplitude do Direito, ou da cegueira diante da vocação latente em cada um de nós. Às vezes, ambos.

Senhores, sabe qual é a segunda fase do boom do Direiro no Brasil? Os concursos. Hoje as instituições brigam às cotoveladas pela chance de conduzir um bom certame. Hoje há cursinhos um em cima do outro (tanto que tive dificuldade de fazer a série do blog "Sobre cursos e cursinhos", que cobriu apenas o mais relevante do que há no mercado). Vender o sonho de uma aprovação é mais lucrativo do que viver o sonho de uma aprovação. Sem os concursos, não haveriam editoras especializadas neste nicho, não haveria a maciça venda de livros todo ano. Não haveria este blog, que defende com unhas e dentes a ideia de que concurseiro não é "ET", nem abastado intelectualmente: o bom concurseiro é aquele que sabe das suas deficiências, mas escuta a voz do seu chamado a lhe guiar.

E aí, torno a perguntar: o sonho da sua aprovação está guardado em qual caixa? A do necessário ou a do contingente? A caixa do contigente é a "caixa de Pandora"*, não tenha dúvida. Cuidado para não ver os males do mundo serem despejados na sua vida profissional.

Você está nessa por acidente, "para ver o que vai dar"? Você tem a certeza que este desejo é seu, não dos seus pais? É muito bonito encher a boca para dizer: "Estou estudando para me tornar um Juiz". Mas é muito, muito difícil pagar esse preço. Só quem vive isso tem a exata noção. E só quem tenta ouvir a voz de Deus iluminando o chamado da vocação está disposto a pagar isso.

Você, que lê esse texto agora, já pensou em advogar? Por que não? Porque o seu colega fracassou? Quem disse que ele é melhor que você? Você já pensou em lecionar? Você já pensou em fazer qualquer coisa que fuja do lugar comum, do óbvio? Por que não pensar nisso? Preguiça ou insegurança?

Eu reduzi o meu ritmo da advocacia para buscar o meu sonho. Mas isso não quer dizer que a advocacia é ruim. Eu desejei advogar, fui, venci, experimentei, e só depois de aprender muito com a advocacia privada, entendi que aquele não era o meu caminho. Mas e quem nem sequer cogita isso? Estaria a magistratura ganhando um juiz frustrado e advocacia  perdendo um brilhante causídico?

A vida não é uma reta. Ela é uma estrada sinuosa, e a nossa visão só alcança a próxima curva. É preciso ter a consciência disso. Andar nessa estrada imaginando que é uma reta, é ignorar os seus percalços. Mais que isso, é trafegar nela sem saber o porquê de chegar ao destino final. A vida é composta do livre arbítrio, mas também tem propósitos Divinos. Não esqueça de ouvir a voz de Deus no seu coração, ao invés de camuflar a teimosia sob o manto da falsa vocação.

Um grande abraço a todos,

MOCAM

* - Caixa de Pandora: Mitologia grega. Nessa interpretação, Epimeteu (o que vê depois, inconsequente) tinha em seu poder uma caixa que lhe haviam dado os deuses, que continha todos os males. Avisou a Pandora, primeira mulher que existiu, que não a abrisse. Pandora não resistiu à curiosidade. Abriu-a e os males escaparam. Por mais depressa que providenciasse fechá-la, somente conservou um único bem, a esperança. E dali em diante, foram os homens afligidos por todos os males. Por isso, o mito da caixa de Pandora quer significar que ao homem imprudente e temeroso são atribuídos os males humanos como consequência da sua falta de conhecimento e previsão. Também é curioso observar como o homem depende de sua própria inteligência para não ficar nas mãos do destino, das intempéries e dos próprios humanos.

5 comentários:

  1. . Excelente texto, MOCAM, pra variar! Parabéns!

    . Coincidentemente, li hoje no CONJUR uma entrevista do Juiz gaúcho que foi demitido recentemente por conta de galanteios impróprios a uma moça casada e outros pequenos infortúnios.

    . A visão dele, ex-Juiz, expressada na entrevista a respeito do Poder Judiciário, é algo inédito, pelo menos para mim.

    . Isso não significa que eu concorde com o ponto de vista expressado por ele acerca do Judiciário e da função judicante, pelo contrário. Mas o ponto de vista dele revela que, muitas vezes, a realização profissional não está no tamanho da cifra que a aprovação num concurso público pode representar, mas na atividade que será desenvolvida pelo sujeito durante o resto – ou pelo menos boa parte – de sua vida.

    . Não sei se posso postar o link aqui, mas, na dúvida, vou postar, porque o relato é interessante e tem tudo a ver com o “post” em comento: http://www.conjur.com.br/2011-fev-19/entrevista-marcelo-colombelli-mezzomo-ex-juiz-rio-grande-sul

    . Enfim, essa é a prova de que pessoas que se fazem tecnicamente merecedoras de aprovação num cargo público, nem sempre guardam esse sonho na caixa do “sonho necessário”.

    . Essas pessoas até poderão desenvolver bem as atividades para as quais foram designadas, mas isso não significa que elas serão felizes profissionalmente.

    . Digo isso porque, por melhor que seja o salário num cargo público, haverá um momento em que o trabalho será repetitivo, cansativo etc. E é nessa hora que se percebe em qual caixa o sonho estava guardado. Tarde demais? Não! Mas sempre ficará a sensação de que um tempo foi perdido.

    . De resto, só posso concluir que a reflexão e a vivência levam à maturidade para se saber em qual caixa nossos sonhos devem ser guardados.

    Abraços.

    Neton/CW

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  2. Mocam, excelente texto para nossa (minha reflesão). Estou na advocacia há 3 anos (1 contratada/2 anos com escritório próprio), mas totalmente insatisfeita num mercado que não aceita jovens empreendedores. Insistem que apenas a advocacia empresarial, dos grandes escritórios, é sinal de sucesso. Sairei da advocacia esse ano para ocupar um cargo médio no TJMG, para alcançar a tão sonhada estabilidade e organizar melhor meus estudos. Espero não estar cometendo um grande erro...

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  3. adorei!
    Sabe que fui primeiro advogar e nunca me encontrei, tentei deixar o direito por isso, mas não consegui.
    Pensei em fazer outro curso...nada me animou!

    Com a ajuda de uma terapeuta pude entender que, gosto de advogar, mas do outro lado, em favor da sociedade, por isso achei o MP!

    abraços
    cliquei por aí!
    Lilian (JusliCW)

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  4. para quem está na faculdade e tem o sonho de ser juiz mas ainda não tem certeza se é vocacionado (essa dúvida é natural) o texto é um tanto quanto esclarecedor e ao mesmo tempo atormentador

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  5. MOCAM, há tempos gostaria de deixar registrada minha admiração diante de sua profunda sensibilidade em conseguir incrementar e aprimorar temas tão relevantes e necessários ao cotidiano daqueles que optaram pelo sofrível, mas também gratificante caminho dos concursos.

    Realmente, somente aqueles obstinados e vocacionados conseguem conquistar a felicidade plena.

    Obrigada pela sua contribuição, sempre enriquecedora a todos nós concursandos.

    Forte abraço.

    Floris/CW

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