domingo, 26 de setembro de 2010

Estou farto de semideuses!

Não é incomum depararmos com colegas consurseiros, já aprovados ou não, que se julgam acima do bem e do mal. As duas formas são tristes de se ver. Um concurseiro não aprovado, inebriado por frequentes acessos de soberba, talvez seja a forma mais tola e legítima de manifestação da própria ignorância. Afinal, o primeiro dever da inteligência é duvidar dela mesma.

Mas quando o assunto são os aprovados que se julgam acima do bem e do mal, o nosso senso crítico, por vezes, tende a sucumbir frente ao êxito do colega. Passamos a ter a falsa percepção da realidade do caminho que levou aquele aprovado ao êxito, rebaixando-nos à condição de desprovidos de inteligência ou, até mesmo, azarados. Mas talvez não seja isso.

Das duas, uma. Quando o foco é a soberba, aquele aprovado que possui esta ignóbil característica, ou menosprezará a caminhada que trilhou, acusando-a de fácil, ou pontuará os momentos de luta, elevando-se à condição de super-herói da própria existência. Nada disso é verídico, amigos, não se enganem.

Reparando alguns colegas, percebi que todos, inclusive aqueles dotados de um aparente equilíbrio, vez ou outra sucumbem. Mas é lógico, não sucumbirão sob o olhar e julgamento alheio. Enquanto montam o frágil castelo de areia que é a sua imagem, por dentro sangram compulsivamente. Derramam lágrimas todas as noites no seu único companheiro: o travesseiro. Afinal, quem nunca se pegou perguntando se esta escolha é a acertada? Quem nunca se questionou acerca do porquê de ter escolhido tão competitiva jornada, como a dos concursos? E, por fim, quem nunca enxugou as próprias lágrimas e, ao topar com o primeiro conhecido, olhou com desdém para o momento que o outro vivia, colocando-se num pedestal imaginário?

Fernando Pessoa, em “Poema em linha reta”, traduz essa ideia em versos ácidos, os quais compilo a seguir:

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
[...]
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida...
[...]
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
[...]
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? [...]

De outro lado, frequentemente estamos a nos referir como os maiores sofredores desse universo. Sem nenhuma visão crítica sobre a realidade, negligenciamos a saída para o nosso problema, numa autêntica autossabotagem. E nessa roda gigante, insistimos novamente nos mesmos erros, sem buscar a solução, ainda que ela esteja debaixo do nosso próprio nariz.

Para isso há solução. A entrega é o caminho mais curto e menos frustrante. E uma boa dose de autoavaliação certamente se faz oportuna. Nem tudo que passamos é fruto da culpa alheia. Apontar o outro como responsável pelo nosso fracasso é admitir para si mesmo que a vida não passa de um barco à deriva, vagando ao capricho da correnteza. Ora, onde está o capitão desta embarcação?

É por isso que, às vezes, sinto-me meio envergonhado ao pedir a Deus êxito na minha jornada. Ele já me deu tanto, que não dá para botar mais essa “na conta d’Ele”. Peço é saúde, disposição, discernimento. Dirijo minhas preces aos meios, não aos fins.

Isso quando não estou errante e acabo por, veladamente, pedir a abreviação desse caminho rumo à toga preta... Sou humano. Somos humanos. Errar é inerente a esta condição. A persistência nesse erro, contudo, é que nos enfia nesse joguete da nossa própria mente.

Já que falei de barco, de mar, de Fernando Pessoa, oportuno que termine mais esse texto com uma de suas estrofes, das minhas favoritas:

Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

Um grande abraço a todos e uma ótima semana,

MOCAM

10 comentários:

  1. Mocam,
    Muito boas suas reflexões, como sempre. Devemos sempre nos pautar pelo equilíbrio em todas as esferas da vida, sem nos vitimizar ou nos exaltar demais. "Quando o ego fala mais alto corremos o risco de nos sobressair pelos nossos defeitos".
    Renata

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  2. Amigo Mocam,
    Essa busca da responsabilidade pessoal é o passo definitivo da maturidade. É a responsabilidade pelos atos pessoais o remédio contra o endeusamento pessoal e a autocomiseração exarcebada.
    A medida real da responsabilização do timoneiro da nau da própria vida é algo hoje tão refretário à superficialidade das facilitações modernas: é mais fácil dizer que o professor não tem didática, do que assumir a preguiça em estudar; ou ser culpada pela obesidade das crianças a rede de fast food, não a displicência dos pais na alimentação dos filhos; ou por em Deus a culpa pelos males do mundo.
    Como sempre, seus textos são iluminados e inspiradores!
    Parabéns

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  3. A maior recompensa pelo trabalho não é o que a pessoa ganha, mas o que a pessoa se torna através do que ganha.
    Bons estudos e otima semana
    Aninha

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  4. "Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
    Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
    Se achar que precisa voltar, volte!
    Se perceber que precisa seguir, siga!
    Se estiver tudo errado, comece novamente.
    Se estiver tudo certo, continue.
    Se sentir saudades, mate-a.
    Se perder um amor, não se perca!
    Se o achar, segure-o!" (Fernando Pessoa)

    à luta

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  5. Excelente texto amigo! Parabéns. Concordo com vc, sempre.
    Abs
    *persis*

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  6. ...e assim seguimos:sempre em frente.
    Texto inspirador. Parabéns.

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  7. Mais um texto sensacional!!!E só pra reforçar, a estrada é árdua, por vezes longa, mas temos que ter FÉ, em Deus especialmente, e em nós mesmos também! É verdade que pedimos muito, e que devemos continuar orando a Deus pela nossa caminhada, e a caminhada de todos aqueles que estão no mesmo barco da vida que nós, mas devemos pedir muita força, discernimento, paciência, saúde, para que possamos continuar! Temos que acreditar sempre, desistir jamais!
    Parabéns MOCAM, e muito obrigada mais uma vez!

    Ass.: Vouconseguirpb

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  8. O difícil é administrar as vitórias no meio das derrotas sem se deixar abater, na vida de concursos certamente quem passou conseguiu essa façanha. Desde que tomei a iniciativa de fazer concursos, não faz muito tempo, passei em todas as primeiras fases (semideus), contudo, tenho amargado derrotas nas discursivas (sempre por pouco). É duro !!! (o jumento) Tenho observado que cresço a cada dia, essa é a razão para eu não desistir. Vivo numa gangorra de emoções. Quem tiver a fórmula para administrar isso me avisa. hehe

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  9. Falou e disse Mocam.. sabias palavras.. Parabéns pelo Blog, sempre que posso dou uma passada por aqui.

    Jakobs I

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  10. Colegas,
    Um comportamento soberbo ou vaidoso por parte de quem exerce um cargo público é um grande indicativo de vazio espiritual, porque na verdade os cargos altos (altos são os cargos, que assim são arbitrariamente classificados pelos homens, e não as pessoas que temporariamente os ocupam) são os que mais sujeitam à obrigação de serventia e humildade, porque de fato só é humilde quem tem segurança acerca de sua real condição de ser humano (e não de semideus, pois isso não existe) diante de seu semelhante. Aprendi isso a duras penas. Abraço a todos. Reinaldo.

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